Fome que ninguem nomeia
Fome que ninguém nomeia A Fome que Ninguém Nomeia A fome não é só do corpo. Ela é uma ausência que cava túneis na alma. É a criança que mastiga pó de tijolo imaginando que é pão. É a mulher que cozinha o próprio silêncio porque não há o que pôr na panela. É o velho que guarda cascas de laranja como se fossem medalhas de sobrevivência. A fome é também o olhar desviado: o vizinho fecha a janela, o governo fecha as contas, o mundo fecha os olhos. E cada um desses fechamentos é um prato a menos. A fome tem som o ronco do estômago é o hino dos invisíveis. Tem cheiro o odor da panela vazia é mais forte que qualquer perfume. Tem cor o cinza da pele que se apaga antes da hora. Mas a fome mais cruel não é a que consome carne e osso, é a que consome o direito de existir. É quando o ser humano vira sobra,vira estatística,vira silêncio. E dói dizer há quem se alimente da fome alheia. ...