O Guardiã das palavras
O Guardião das Palavras
Na cidade de Pedra Clara, onde o tempo parecia andar mais devagar e os ventos carregavam lembranças, havia uma biblioteca esquecida. Não constava em mapas, nem em registros oficiais. Era como se ela existisse apenas para quem realmente precisasse encontrá-la.
Isadora chegou à cidade em busca de silêncio. Depois de anos tentando publicar seus textos, colecionando rejeições e dúvidas, ela decidiu se afastar de tudo. Alugou uma casa simples, com janelas grandes e cheiro de madeira antiga. Mas o vazio não a deixava em paz.
Certa noite, enquanto caminhava sem rumo, viu uma construção escondida entre árvores retorcidas. A porta estava entreaberta, e uma luz tênue escapava pelas frestas. Era a biblioteca.
Lá dentro, o ar era denso, como se cada livro respirasse. As estantes se estendiam até o teto, e o chão rangia sob seus passos. No centro, uma mesa com um caderno aberto e uma pena repousando sobre ele. Isadora se aproximou, tocou o papel e ouviu.
"Por que você parou de escrever?"
A voz não vinha de ninguém visível. Era como um sussurro que nascia das páginas. Isadora recuou, assustada, mas algo dentro dela a impedia de fugir.
— Porque ninguém escuta. Porque parece que não importa, ela respondeu, quase sem perceber que falava em voz alta.
O caderno brilhou levemente. As estantes começaram a vibrar, e uma brisa suave percorreu o salão.
"Escrever não é sobre ser ouvido. É sobre não desaparecer."
Naquela noite, Isadora escreveu. Palavras que ela achava perdidas voltaram. Histórias que nunca ousou contar surgiram como se estivessem esperando por ela.
Ela voltou à biblioteca todas as noites. E cada vez que escrevia, sentia a presença do guardião, uma força invisível que guiava sua mão, que soprava ideias, que acendia memórias.
Meses depois, seus textos começaram a circular. Primeiro entre vizinhos, depois em blogs, depois em editoras. Mas Isadora já não escrevia por reconhecimento. Ela escrevia porque havia entendido: a literatura é uma forma de existir.
E dizem que, até hoje, quem entra naquela biblioteca e abre um caderno em branco pode ouvir o guardião. Ele não fala com todos. Só com aqueles que escrevem para resistir.
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