Fome que ninguem nomeia
Fome que ninguém nomeia
A Fome que Ninguém Nomeia
A fome não é só do corpo.
Ela é uma ausência que cava túneis na alma.
É a criança que mastiga pó de tijolo
imaginando que é pão.
É a mulher que cozinha o próprio silêncio
porque não há o que pôr na panela.
É o velho que guarda cascas de laranja
como se fossem medalhas de sobrevivência.
A fome é também o olhar desviado:
o vizinho fecha a janela,
o governo fecha as contas,
o mundo fecha os olhos.
E cada um desses fechamentos
é um prato a menos.
A fome tem som
o ronco do estômago é o hino dos invisíveis.
Tem cheiro
o odor da panela vazia é mais forte que qualquer perfume.
Tem cor
o cinza da pele que se apaga antes da hora.
Mas a fome mais cruel
não é a que consome carne e osso, é a que consome o direito de existir.
É quando o ser humano vira sobra,vira estatística,vira silêncio.
E dói dizer há quem se alimente da fome alheia.
Políticos que erguem palanques sobre pratos vazios.
Religiosos que prometem céu
a quem não tem sequer chão.
Empresários que contam moedas
enquanto crianças contam ossos.
A fome é ferida coletiva.
E não se cura com doação de um dia,
se cura com justiça todos os dias.
Até lá, seguiremos ouvindo o grito que não sai,
a barriga que chora sem lágrimas,
o corpo que se curva sem fé.
Porque a fome não é só miséria.
A fome é crime.
A fome é faca.
A fome é sempre um assassinato planejado pela indiferença.
Dayane Marques (D.M)

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