A Livraria das Histórias Esquecidas

A Livraria das Histórias Esquecidas 





A livraria não estava ali na noite anterior.

Enayad tinha certeza disso.

Passava pela mesma rua todos os dias, sempre depois das onze, quando saía do trabalho e atravessava o centro antigo da cidade. Conhecia cada janela quebrada, cada poste que piscava e até o desenho das rachaduras nos muros.

Por isso estranhou quando encontrou uma porta estreita entre dois prédios abandonados.

Acima dela, uma placa de madeira balançava com o vento.

HISTÓRIAS ESQUECIDAS, ABERTO ATÉ O ÚLTIMO LEITOR

Enayad parou.

A rua estava vazia. Nenhum carro, nenhuma conversa distante, nenhum cachorro revirando sacos de lixo. Apenas aquela porta iluminada por uma luz dourada que escapava pelas frestas.

Ela deveria ter continuado andando.

Em vez disso, aproximou-se.

Na vitrine havia livros de todos os tamanhos. Alguns tinham capas novas; outros pareciam antigos demais para ainda existirem. Em um deles, não havia título. Em outro, o nome do autor estava apagando lentamente, letra por letra.

Enayad encostou a mão no vidro.

Do lado de dentro, alguma coisa se moveu.

Um livro caiu sozinho de uma das prateleiras.

Ela recuou.

A porta se abriu.

Um pequeno sino tocou, embora não houvesse sino algum pendurado.

— Pode entrar — disse uma voz feminina.
— Eles não gostam de esperar.

Enayad olhou para os dois lados da rua antes de atravessar a porta.

O interior era muito maior do que parecia por fora. As estantes subiam até desaparecer na escuridão do teto. Escadas de madeira deslizavam sozinhas pelos corredores. Pequenas luzes flutuavam entre os livros como vaga-lumes.

Atrás do balcão havia uma mulher de vestido escuro. Os cabelos brancos caíam sobre os ombros, mas seu rosto parecia jovem.

Ela fechou o livro que estava lendo.

— Finalmente — disse. 
— As histórias estavam esperando por você.

— Acho que entrei no lugar errado.

— Quase todo mundo que entra aqui diz isso.

— Que livraria é essa?

A mulher passou os dedos sobre a capa do livro à sua frente.

— Esta é a livraria das histórias que o mundo esqueceu.

Enayad sorriu, sem graça.

— Isso não faz sentido.

— Faz mais do que deveria.

A mulher saiu de trás do balcão e caminhou até uma estante próxima. Retirou um livro pequeno, de capa verde, e o colocou nas mãos de Enayad.

O título estava quase apagado.

— Este livro foi escrito por uma mulher chamada Amélia Duarte, explicou. 
— Ela levou sete anos para terminá-lo. Escrevia durante a madrugada, depois que os filhos dormiam. Publicou com o pouco dinheiro que tinha e vendeu somente três exemplares.

Enayad abriu o livro.

As páginas estavam em branco.

— Não há nada aqui.

— Porque ninguém mais se lembra da história.

— E o que acontece quando uma história é esquecida?

A mulher olhou para as estantes.

— Primeiro, as palavras desaparecem. Depois, os personagens. Por último, o nome de quem a escreveu.

Uma rajada de vento atravessou a livraria.

Em algum lugar, uma menina chorou.

Enayad fechou o livro.

— Tem alguém aqui?

— Há muitos.

A mulher a conduziu até o final de um corredor. Atrás de uma cortina de veludo havia uma sala cheia de pessoas.

Ou quase pessoas.

Um homem sem rosto permanecia sentado diante de uma janela. Uma criança transparente abraçava um urso de pano. Uma guerreira usava uma armadura coberta de ferrugem. Perto da parede, uma jovem com asas rasgadas observava as próprias mãos desaparecerem.

— São personagens — sussurrou Enayad.

— Personagens esquecidos, corrigiu a mulher. — Sem leitores, eles não conseguem permanecer inteiros.

A menina com o urso olhou para Enayad.

— Você veio nos buscar?

Enayad não soube responder.

A mulher entregou-lhe novamente o livro verde.

— Leia.

— Mas as páginas estão vazias.

— Uma história nunca fica completamente vazia. Às vezes, ela só precisa que alguém escute com atenção.

Enayad encostou o livro no peito.

No começo, não ouviu nada.

Depois veio um sussurro.

Uma voz fraca, quase perdida.

Falava sobre uma cidade cercada por montanhas, sobre uma mulher que conversava com as estrelas e sobre uma criança que guardava luz dentro dos bolsos.

As palavras começaram a surgir nas páginas.

Enayad leu a primeira frase em voz alta.

A menina do urso sorriu.

Leu a segunda.

O homem sentado diante da janela recuperou parte do rosto.

Quando chegou ao final da página, a jovem de asas rasgadas deixou de desaparecer.

— Está funcionando — disse Enayad.

— Uma história vive enquanto encontra alguém disposto a carregá-la,  respondeu a mulher.

Enayad continuou lendo.

A voz ficou mais forte. As letras voltaram. Os personagens recuperaram as cores, os nomes e as lembranças.

Quando terminou o primeiro capítulo, o livro já não parecia velho. O título brilhava na capa, e o nome de Amélia Duarte podia ser lido novamente.

Enayad fechou o livro devagar.

— Pronto?

— Ainda não.

— O que falta?

— Você precisa contar essa história para outra pessoa antes do amanhecer.

Enayad olhou para o relógio.

Três horas e dezessete minutos.

— E se eu não conseguir?

A mulher voltou os olhos para a menina do urso.

— Amanhã ela não estará mais aqui.

A criança apertou o brinquedo contra o peito.

Enayad colocou o livro dentro da bolsa.

— Onde encontro a autora?

— Talvez você não encontre.

— Então como as pessoas vão conhecer a história?

A mulher sorriu.

— Foi para isso que inventaram os contadores de histórias.

Enayad saiu da livraria correndo.

A cidade parecia diferente. As ruas estavam silenciosas, mas as janelas agora tinham luzes acesas. Ela pensou em bater de porta em porta, mas ninguém abriria para uma desconhecida naquela hora.

Pegou o celular.

Criou uma página.

Não escolheu um nome bonito nem pensou em cores, seguidores ou números. Escreveu apenas a frase que ouvira dentro da livraria:

Uma história não morre quando termina. Morre quando ninguém mais a procura.

Abaixo, começou a contar a história de Amélia Duarte.

Publicou o primeiro trecho.

Uma pessoa leu.

Depois outra.

Um comentário apareceu:

Onde posso encontrar esse livro?

Em seguida, outro:

Quem é essa autora?

Às quatro da manhã, cinquenta pessoas já acompanhavam a publicação.

Às cinco, alguém escreveu que conhecia Amélia.

Às cinco e quarenta, uma foto surgiu na página. Nela, uma senhora segurava um exemplar de capa verde contra o peito.

A legenda dizia:

Minha mãe escreveu esse livro. Ela achava que ninguém se lembrava.

Enayad sentiu os olhos encherem de lágrimas.

Quando o sol começou a nascer, ela voltou correndo para a rua da livraria.

Os dois prédios abandonados continuavam ali.

Mas a porta havia sumido.

No lugar, havia apenas um muro antigo.

Enayad tocou os tijolos.

Nada aconteceu.

Então percebeu que alguma coisa havia sido colocada dentro de sua bolsa.

Era um pequeno cartão dourado.

De um lado, estava escrito:

CONTADORA DE HISTÓRIAS

Do outro:

Volte quando outra história chamar.

Naquela noite, Enayad não encontrou a livraria.

Nem na noite seguinte.

Mas continuou publicando.

A cada semana, apresentava um novo escritor, um novo livro, um novo personagem. Algumas histórias eram assustadoras. Outras falavam de amor, perda, esperança, mundos distantes e pessoas tentando sobreviver dentro de si mesmas.

Pouco a pouco, os leitores começaram a chegar.

Não eram multidões.

Mas eram reais.

Perguntavam pelos autores. Procuravam os livros. Compartilhavam trechos. Diziam que nunca teriam conhecido aquelas obras se Enayad não tivesse contado sobre elas.

Meses depois, ao voltar para casa, ela encontrou novamente a porta dourada entre os prédios.

A placa ainda dizia:

HISTÓRIAS ESQUECIDAS, ABERTO ATÉ O ÚLTIMO LEITOR

Enayad entrou.

O sino invisível tocou.

A mulher de vestido escuro a esperava atrás do balcão.

Dessa vez, todas as estantes estavam iluminadas.

— Você voltou — disse Enayad.

— Eu nunca fui embora.

— E os personagens?

A mulher apontou para a sala no final do corredor.

A menina do urso corria entre as estantes. O homem da janela tinha um rosto. A guerreira segurava uma espada nova. A jovem de asas rasgadas agora voava perto do teto.

Enayad sorriu.

— Eles estão vivos.

— Porque alguém se lembrou deles.

A mulher colocou sobre o balcão uma pilha de livros.

Centenas.

Talvez milhares.

— Há muitas histórias esperando — disse.

Enayad abriu o primeiro livro.

Na página inicial havia apenas um nome e uma frase.

Ela respirou fundo.

Depois começou a ler.

Porque algumas histórias não precisam de fama.

Precisam apenas de uma voz.

E, em algum lugar, sempre existe alguém esperando para ouvi-las.





Texto: Dayane Marques
Contadora de Histórias  
Conheça novos escritores
Toda história merece ser encontrada.



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Fome que ninguem nomeia

O Sussurro das Estrelas**